
Uma vida a dois, vivida em 4 anos.
Nunca acordei cedo quando não tinha nada pra fazer, mas aquele dia foi diferente. Algo me fez levantar da cama às 7h30. Desci as escadas e fui ao seu encontro. Sentei na beira da cama, foi quando minha cunhada chamou no portão. Minha mãe levantou para atender enquanto eu curtia aqueles últimos minutos ouvindo sua respiração forçada, sentindo o calor das suas mãos nas minhas e pensando que aquele não poderia ser o fim daquela vida feliz, daquela vida cheia de planos.
Final do ano 2002. Minha mãe chega com a notícia de que eu iria estudar em um colégio fora da minha cidade, a princípio aquilo me soou meio cansativo, pois eu teria que me deslocar todos os dias de Duque de Caxias à Penha, no RJ. Depois tudo foi melhorando, pois minha mãe sugeriu que eu ficasse na casa da minha avó durante toda semana, e que viesse pra casa apenas nos finais de semana. Gostei da idéia, afinal eu adorava ficar na casa da minha avó.
Comecei o ano de 2003 na casa do meu tio, Campo Grande RJ, lugar onde adorava estar nos finais de semana vagos. Logo depois das festas de final de ano e também o carnaval é tempo de se preparar para a volta às aulas.
Quando estava tudo pronto para começar o ano letivo, me mudei pra casa da minha avó. Chamava-se Rosa e como todas as avós do mundo, acabava cedendo às minhas vontades de neto. Na hora dos intervalos das aulas sempre levava “merendas” pra eu lanchar, não faltava nenhum dia. Alguns dos meus colegas de classe sempre caçoavam de mim por ser tão “paparicado” pela minha avó, mas eu nem ligava pra eles, ao menos aquela era uma maneira de todos verem que alguém se importava comigo. Alguns deles não tinham pais, outros tinham mas era como se não tivessem. Eu entendia aquela brincadeira como forma de se expressar, de mostrar para alguém que eles existiam, já que seus pais não notavam.
Escola Municipal Presidente Eurico Dutra, assim era o nome do colégio. Aliás, ainda é o nome do colégio, pois ainda está funcionando normalmente. Naquele ano eu era aluno da 5ª série de ensino fundamental, sempre fui bom aluno, do tipo que senta na frente e tira notas boas. Para ser assim não precisa ter um pai ou uma mãe muito rigoroso, basta que os ensinamentos de vida que eles nos passam entrem em nossas mentes e assim sabermos que o nosso futuro dependerá daquilo um dia.
Os finais de semana, antes das férias de Julho, eu passava em casa com os meus pais. Depois eu fui criando um laço tão forte de amizade com as pessoas que moravam lá, e um laço mais forte ainda de amor e carinho pela minha avó que eu fui esquecendo da minha vida ao lado dos meus pais e só queria ficar ao lado dela e daquela que pra mim poderia ser uma nova vida, em um lugar diferente, até porque eu nunca gostei muito de morar onde eu moro. Eu via naquela vida, uma oportunidade de criar um novo ambiente para viver.
Minha mãe ficou um pouco chateada com a minha ausência durante aquele tempo, mas conformada, pois sabia que eu estava bem. Eu e minha avó brigávamos muito, mas como dizem por aí, nenhuma relação dá certo sem brigas. Eu achava isso muito bacana, pois antes de eu ir morar com a minha avó, não me lembro de nenhum laço de amizade, carinho e proximidade que tivemos. Ali começava uma vida a dois.
Quando estava chegando o fim do ano, após as provas do quarto bimestre comecei a me ausentar da escola para passar mais tempo com meus pais e meus irmãos. Aconteceu um fato engraçado. Uma noite comum, meu pai sempre levava a família para jantar fora de casa, só que eu quase não participava desses jantares por estar sempre com minha avó. Então em uma dessas noites em que fui passar com meus pais, saímos todos e fomos ao “lugar de sempre”. Em 2003 eu estava com apenas 11 anos de idade, e como toda criança de 11 anos de idade naquela época em que a internet não estava em alta, eu adorava brincar em parques. Foi então que sai para brincar e meus dois irmãos ficaram com meus pais. Quando voltei para beber alguma coisa o dono do estabelecimento me informou que meus pais e meus irmãos haviam ido embora, mas como eu conhecia o rapaz e ele conhecia toda minha família, achei que estava apenas brincando. Era verdade.
Fui esquecido pelos meus pais e aí segui um dos ensinamentos que aprendi com eles: não saí daquele lugar. 10 minutos depois, meu pai aparece correndo e perguntou: Você está aí? Respondi: To né, não foi aqui que vocês me deixaram? Ele disse pensar que eu estava na casa da minha avó, voltamos pra casa e ficou tudo certo.
Semanas depois recebi a notícia de que seria transferido de colégio. Mais uma vez não acreditei, mas dessa vez foi mais rápido de cair a ficha, pois a minha mãe estava com o comprovante de matrícula do meu novo colégio nas mãos.
Início de 2004. Minha avó passa a freqüentar mais a minha casa, sem deixar de vir nenhum final de semana. O nosso laço estava cada vez mais forte. Todos os finais de semana em que eu ia para a casa do meu tio ela estava sempre me acompanhando. Todas as datas comemorativas ela marcava presença. Não esquecia nenhum aniversário de alguém da família. Sempre dava presentes.
9 de Novembro de 2007, já me tornava um adolescente mais responsável com o meu primeiro emprego aos 15 anos de idade. Ela, com seus 77 anos, ficou tão feliz como uma menina de 17, com um sorriso contagiante. Porém ninguém imaginava que um mês depois descobriríamos uma doença tão cruel. Câncer.
Aquela descoberta foi o começo do fim. Do fim de uma vida sempre feliz, sempre com sorrisos, sempre tentando amenizar uma situação tempestuosa, de uma vida cheia de planos.
De lá pra cá a luta foi muito grande, quem acompanhou de perto sofreu muito e mesmo aqueles que estavam de longe sofreram. Amigos, parentes e vizinhos, todos comovidos com a situação em que se encontrava Rosa Cruz, aquela moradora do 201 da São Filadelfo. A que tinha o simples sonho de trocar de colchão e depois sua janela para que pudesse ver o sol nascer.
Nunca acordei cedo quando não tinha nada pra fazer, mas 25 de Janeiro de 2008 foi diferente. Algo me fez levantar da cama às 7h30. Desci as escadas e fui ao seu encontro. Sentei à beira da cama, foi quando minha cunhada chamou no portão. Minha mãe levantou para atender enquanto eu curtia aqueles últimos minutos ouvindo sua respiração forçada, sentindo o calor das suas mãos nas minhas e pensando que aquele não poderia ser o fim daquela vida feliz, daquela vida cheia de planos, percebi o motivo pelo qual acordei naquele instante, pois ali eu vi e ouvi sua última respiração, bem forte, dizendo Adeus.





