Blog de Diogo: sábado, 30 de agosto de 2008
por Diogo Gama Caetano (30/8/2008)
Cenários de um Vício (Versão Final)
Corria como ninguém quando ouvi um estampido que encheu minha cabeça de incertezas. Naquele momento, não sabia o que havia acontecido. Só sabia que, de uma hora para outra e sem aparente motivo, minhas forças iam se dissipando rapidamente, fazendo meu corpo ir de encontro ao cimento áspero que encapava o chão da calçada. Caí no chão e percebi uma forte dor nascendo em minhas costas. Enquanto estava estatelado de bruços, comecei a perceber que dali não sairia. O que fiz de errado? Tentava perceber, mas os sentidos me fugiam, prejudicando minha percepção. De repente, um filme começou a passar rápido em meus olhos. Fechei-os com medo e, quando abri outra vez, vi que estava deitado na areia. Levantei, me sentindo bem melhor, e me concentrei em descobrir onde tinha ido parar e como. Dei-me conta de que, estranhamente, meu corpo não fazia parte daquela cena. Ninguém conseguia me ver, tocar, ouvir, ou qualquer coisa que pudesse dar um sinal da minha existência. Procurei me situar e descobri onde estava. Parecia estranho, mas voltei dois anos no tempo.
Era o réveillon do ano 2000. Olhei para o lado e vi algo impressionante. Aproximei-me para ver se aquilo era uma miragem, mas não era. Estava, naquele instante, olhando nos olhos de um clone perfeito de mim mesmo. Como pode? Era eu, logo ali! Conseguia me ver em uma imagem mais clara do que a que um espelho poderia me dar. Estava com uma aparência ótima e um sorriso no rosto que só se definia como pura felicidade. Um sorriso que eu já não dava há tempos. Não acreditava no que via, mas ao mesmo tempo, começava a entender o que estava acontecendo. Estava assistindo a um filme, e parece que eu era o personagem principal.
De repente, a multidão se juntou em um coro: Uma contagem regressiva que introduzia não apenas um novo ano, mas um novo século. Depois de dez segundos, estouros e clarões tomaram conta da cena. A praia de Copacabana se iluminou em uma das mais belas cenas que já presenciei. Vi-me abraçando amigos, colegas, parentes, conhecidos e desconhecidos. Vi a alegria tomando conta do lugar. Vi meus olhos brilhando enquanto vislumbrava o céu manchado de vermelho, verde e azul. Vi também um de meus amigos me oferecendo um cigarro com aspecto bem caseiro. Quem dera não tivesse pegado.
De repente, a cena ficou turva. O cenário todo começou a rodopiar rápido durante uns segundos, até que aquele carrossel de vultos foi se dissipando e ficando estático em um novo lugar.
Estava em meu apartamento na Lapa. Olhei um calendário pendurado na parede descobri a data do dia em questão: 21 de outubro de 2001. Andei pela casa em busca de algo que nem eu sabia o que era. E acho que encontrei. Chegando ao quarto, me deparei comigo mesmo deitado na cama. Mas aquele não era eu. Tinha uma expressão vaga no rosto e parecia “desligado”. Vi meus olhos vermelhos sobressaídos em um rosto pálido, que em conjunto com um corpo mole compunham um individuo com aspectos senão assustadores, trágicos. Quem diria que era assim que eu ficava depois de inalar aquele pó cujos restos jaziam na cômoda ao lado da cama.
A cena se foi de novo, mas não trocou de lugar. Apenas acelerou para o que parecia ser mais ou menos um mês depois do que tinha acabado de ver. Estava me vendo novamente na cama, mas a cena era totalmente diferente. A tranqüilidade mórbida que tinha visto em mim não existia mais. Estava agitado, suava em bicas e não conseguia ficar parado. De vez em quando, deitava na cama e se contorcia como se estivesse sentindo dor. Sentava, levava as mãos à cabeça, se afundava nos joelhos e urrava de desespero. Eu me olhava naquela condição e lágrimas vieram aos meus olhos. Sabia por que era aquilo. No começo, uma pequena dose faz seu trabalho, mas com o tempo elas têm de aumentar. E quando não existe dose nenhuma, a coisa fica feia. Era assim que eu ficava quando a abstinência batia. Sabia o que era sentir aquilo, mas não sabia o que era ver alguém sentindo aquilo. E sinceramente, o sofrimento nos dois casos é o mesmo. Ainda mais se você estiver vendo você mesmo.
Mais uma vez, a cena se dissipou. Meu apartamento na Lapa se desmontou como num passe de mágica e se montou de novo formando uma casa da qual tinha lembranças antigas, mas perfeitas. Precisava ver uma coisa, por isso corri rápido pelo caminho que havia decorado quando criança. Passei por uma porta entreaberta e lá estava minha mãe. Tinha morrido há apenas dois meses, mas parecia tanto tempo. Como estava grato de poder olhar para ela naquele momento. Estava deitada em sua cama, e mesmo dormindo, me passava uma segurança que só o amor de mãe consegue transmitir. Sabia que ela não iria sentir, mas não pude deixar de lhe dar um beijo. Um beijo que ela não receberia, mas que teria dado. Um beijo que não era para ela, mas para mim. De repente, vi um vulto passando pela porta e corri para ver o que acontecia no corredor da casa. Deparei-me comigo mesmo andando sorrateiramente. Parecia que não queria despertar atenção. E realmente não queria. Vi-me indo para a cozinha e abrindo um armário, de onde saiu um pote de biscoitos. E de dentro do pote de biscoitos, saiu um enrolado de notas presas por um elástico. Eram as economias de mamãe. Não pude deixar de sentir raiva de mim mesmo. Como pude fazer aquilo? Fechei minhas mãos com força e liberei toda a raiva que sentia em um soco no meu eu mal. Um soco com todo ódio e culpa que juntei durante toda a minha vida. Que pena que aquele soco só serviu para causar um borrão na cena, que me sugou para dentro de outra.
Estava em um cenário mais recente. Eram 3 horas da tarde de uma terça- feira, 17 de setembro de 2002. Estava em pé dentro de um ônibus que passava pela avenida Brasil. Olhei para os bancos do fundo do ônibus e me vi sentado onde já esperava que estivesse. Gostaria de ter cancelado as cenas que se seguiram. Vi-me levantando e seguindo para frente do ônibus sem que pudesse fazer qualquer coisa para impedir. Tirei uma arma do bolso e anunciei um assalto. Estava suando e o medo era evidente nas minhas feições. Enquanto via aquilo, não queria acreditar que aquele monstro era eu mesmo. Pensar que eu fiz tudo aquilo, apenas para alimentar o meu vício. Eu estava prejudicando as outras pessoas apenas para me satisfazer com mais drogas. O que foi que eu me tornei? Só consegui parar e ficar assistindo aquele monstro, que infelizmente era eu, fazer a maior burrada de sua vida. E de novo. Depois de levar tudo o que conseguia dos passageiros, me vi descendo do ônibus. Saí logo em seguida e persegui aquele homem desprezível.Enquanto corria em um rumo repetitivo, apenas seguindo meu eu, consegui descobrir o que foi aquele barulho. Um dos passageiros estava armado. Quando desci do ônibus, ele esperou um pouco e veio atrás de mim. Nervoso do jeito que estava não consegui ver o destino fechando o cerco contra mim. O homem esperou chegar perto, empunhou a arma e mirou em mim. Quando puxou o gatilho, pisquei. Ao abrir meus olhos, percebi que tinha voltado ao meu corpo apenas para tomar aquele tiro de novo. Corria como ninguém quando ouvi o estampido. Agora sabia, e com detalhes, o que tinha acontecido. Senti novamente minhas forças se esvaindo rapidamente, fazendo meu corpo ir de encontro ao chão. Sentia uma forte dor nas costas, onde a bala me acertou, e tive a certeza que dali não ia sair. Agora sabia onde tinha errado. Tinha errado dois anos atrás, quando experimentei um simples baseado.
OBS: Esse foi um dos textos do livro da galera blogueira "Muitas vezes Rio". Um dos textos que mais me chamou a atenção por tratar de um assunto tão real, tão comum nos dias de hoje que nem paramos para pensar no lado de quem está passando pela determinada situação.
Uma obra de gente grande, mas o DIOGO GAMA tem apenas 16 anos de idade e tem um futuro enormemente brilhante, realmente uma honra muito grande de ter um conto publicado num livro onde existem pessoas muito, mas muito inteligentes mesmo!
Muito obrigado galera!
Um comentário:
Esse tbm é muito boumm...
Ficou mara!!!
Gostei muito dele...Uma coisa q parece ser meio doido mais q no final tem um grande sentido e nos deixa uma grande mensagem....
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